terça-feira, 6 de julho de 2010

Vó Ana

Quero pedir licença ao meus leitores para fazer uma homenagem à minha querida vó Ana Francisca da Silva, que há uma semana partiu dessa vida. Tive o privilégio de viver mais vinte anos da minha vida próximo dela. Ela era natural do Rio Grande do Norte, mas viveu grande parte de sua vida em São Paulo e aqui em Rondônia. Apesar disso, conservou bastante seu sotaque e expressões do nordeste, o que me agradava muito. Tinha uma habilidade incrível. Fazia um artesanato chamado 'labirinto' usando uma armação em madeira, na qual ela ia transformando fios e sacos em belos panos de cozinha. O mais impressionante era quando ela passava pequenas linhas em minúsculas agulhas.  A tapioca com cafezinho era algo imperdível.
Sempre teve um jeito muito especial e agradável quando falava comigo pessoalmente ou pelo telefone.  Tinha uma voz forte. Era muito bom quando ela dizia quase que cantando: Fabrício.... Isso me emociona! Fiquei a semana passada toda vendo flashes de momentos que vivi com ela. Chorei, chorei e me emociono de novo agora. Quando ela morava aqui em Cacoal, incumbiu-me de levá-la todo domingo à igreja. Eu fazia isso com muito prazer e ela,  sempre, sempre, me agradecia com aquele jeito doce de vó.  Protestante, de uma igreja muito rigorosa, brincava sempre dizendo que era a 'Ana Chico'. Ela gostava de ser chamada assim. Dizia que nós éramos da famíla Chico por conta do nome dela. Viveu 88 anos de absoluta lucidez. Criou treze filhos, incluindo um de afeto, de coração.
Vó é um ser que encanta, que desarma qualquer pessoa. 
Os cabelos branquinhos, os vestidos estampados e o caminhar lento - apoiado na bengala - causavam em mim um sentimento de respeito, amor, encantamento. Lembrei-me especialmente de dois momentos que quero compartilhar aqui com vocês. Quando crianças, eu, meu irmão e um primo fomos passar as férias no sítio, na casa dela e de meu avô, aqui em Cacoal. Ficamos lá uma semana, correndo pelos cafezais e brincando pelo quintal com os franguinhos Noronha, Nazinha e Nogueira - nomes dados por ela.  Na última noite das férias no sítio, o meu primo fez xixi na cama e deixou lençóis e cobertores todos molhados. Ela, na nossa despedida, não disse nada, ficou 'na dela'. Foi cortês, discreta. Dias depois, lembrando-se do ocorrido, ela dizia: No derradeiro dia, o menino fez aquilo na cama, no derradeiro dia, no derradeiro dia....
Eu ouvi tudo e a palavra 'derradeiro' me chamou muito a atenção, porque eu não sabia o que era.  É claro que o contexto já permitia deduzir o significado. Hoje, toda vez que escuto ou falo 'derradeiro', a vó Ana me vem à mente. É por isso que gosto de usá-la sempre. O outro momento foi quando eu e minha mãe fomos levá-la para fazer uma mamografia. Ela ficou muito incomodada com o tal exame. Estava visivelmente desconcertada. Ela entrou no consultório do médico e,  quando saiu, eu logo perguntei: E aí, vó, como foi o exame? E ela, usando o seu jeitão nordestino, me disse: meu filho, colocaram minhas 'malaca' numa 'estrovenga'. Eu e minha mãe achamos graça, imaginando o que ela queria dizer. Cheguei em casa e fui logo ver o dicionário. Lá estava assim: 'malaca': peito caído; 'estrovenga': máquina esquisita. Que sabedoria a da vó Ana! Sou tomado agora por muita saudade e as lágrimas persistem em preencher meus olhos. Tenho certeza de que agora a vó Ana está acolhida por Deus. Aqui ela arrebentou! Um Beijo, vó!


12 comentários:

Eduardo disse...

Fabrício, a homenagem a ANA CHICO ficou linda, é impossível ler e não chorar. Obrigado pelo gesto de carinho com a sua avó. Um forte abraço. Tio Eduardo

Letícia de Andrade Venicio disse...

A cada palavra que ia lendo, as lembranças da bisa e os momentos bons que passamos com ela vinham na minha mente, as lágrimas rolaram na primeira linha.. Sempre vou lembrar com muito amor e respeito da vó Ana! Pra sempre na nossa memória e no nosso coração, agora com toda a certeza ela está junto de Deus como um anjo intercedendo por nós!

Saudades eternas bisa.

Anônimo disse...

Oi primo!
Eu adoro a história da malaca e da estrovenga, sempre conto a amigos!
Sucesso da vó Ana!
Parabéns pelo post.
Melissa

Hina disse...

Professor, sábias palavras!!

É vó é a melhor coisa que um ser humano pode ter, feliz daquele que ao recordar de sua infância, tem a boa sorte de poder falar das férias na casa dela, da comida quem ninguém saber fazer melhor, e até mesmo daquelas palmadas que só elas sabem dar.

Fui criada pela minha avó, então sei bem o seu sentimento aqui exposto.

Realmente vó é um ser que encanta, que desarma qualquer pessoa.

Thonny Hawany disse...

Olá meu amigo e professor Fabrício, passei aqui para conhecer a saudosa e sábia vó Ana. Que bom lembrar da família com tanto carinho. Escrevi mais um texto sobre Direito Homoafetivo e foi inevitável não lembrar de suas aulas de Constitucional. Tomei a liberdade de dizer isso dentro do corpo do texto. Boas férias.

Alessandra disse...

Lendo sua homenagem à vó Ana me recordei de um texto que escrevi sobre os últimos dias de meu querido avô,o "pai tatu" lembra? rs...Fato é, que essas "figuras" fizeram a grande diferença em nossas vidas e agora contam seus "causos" lá no céu, para onde um dia também iremos todos nós. Indubitavelmente fica a saudade no coração de todos, um sentimento de "fica mais um pouco" misturado com sorriso de " obrigada por ter existido, até um dia!"...Lágrimas? sempre virão, mas para lembrar dos momentos bons..das malacas, das estrovengas, das... "quais são suas intensões? das gargalhadas, rs...É isso aí, eles se foram, mas estarão em nossas memórias e corações para sempre!!!Fiquemos todos na Paz!!!

William R Grilli Gama disse...

Acho que esse é o melhor texto que já li aqui... Bão, bão, bão

Lia e ria um sorriso alegre e sentido, conhecendo da dor de quem perde uma avó ou um avô...

A história da malaca na estrovenga é sensacional... foi-se Ana Chico, fica para sempre o amor da família por tudo que ela representou...

Abraço

Fabrício Andrade disse...

Queridos familiares e amigos, é muito triste a perda da vó Ana, mas fico muito feliz com a manifestação de todos vocês aqui. Mesmo aqueles que não são parentes se sensibilizaram com a minha vó e isso revela a verdadeira sensibilidade humana. Muito obrigado. Um beijo e um abraço a todos.

Gleise Horn disse...

Eu li esse texto no dia em que vc o postou, fiquei sem palavras para comentar tanta sensibilidade.. aliás, continuo sem palavras. Mas sempre que voltava ao teu blog me sentia com esse dever descumprido, essa necessidade de te dizer o qto é bonito ver alguém ordenar tão bem um sentimento e traduzi-lo assim, como vc vez nesse texto, com tudo o que há de melhor no coração, cada dor, cada alegria e lembrança no seu devido lugar. Beijos.

Raul Nepomuceno disse...

Linda homenagem, cheia de sensibilidade e afeição. Não sei nem o que comentar...

Anônimo disse...

Muito lindo !!!
Fabricio aquela parte que vc diz,quando a vó ia falar com vc e parecia que estava cantando o seu nome, acho que essa era a mareira que ela falava o nome de todos os netos e bisnetos,ela era tão amorosa que nossos nomes parecia uma melododia saido da boca dela. Nossa vó foi a pessoa mais amorosa que eu já conheci.Bjos da sua prima Marisa.

Fabrício Andrade disse...

Obrigado, Raul. Marisa, minha prima, que prazer receber uma visita sua aqui. É verdade, a vó Ana era um ser muito especial. Tivemos o privilégio de tê-la sempre bem perto. Beijão e volte sempre.