sábado, 20 de março de 2010

Os famosos e os anônimos perigosos






















Não é raro a gente ficar sabendo de envolvimento de atletas e artistas famosos com pessoas de favelas, morros ou comunidades, especialmente no Rio de Janeiro. Quando se fala de jogar de futebol, isso é muito mais comum. Já vimos episódios com o goleiro Júlio César, Robinho e, mais recentemente, com Adriano e Vagner Love, jogadores do Flamengo. Eles estiveram em festas ou eventos ao lado de pessoas envolvidas com crime. Nesse mundo de hoje tecnológico e digital, tudo pode ser facilmente registrado. Todo mundo tem um telefone com câmera para fazer um vídeo ou uma foto. Vazar para a grande mídia é um estalo de dedo. É admirável que pessoas famosas e que têm origem humilde não se afastem de suas raízes da favela ou da periferia. O problema é quando a relação não é apenas de amizade, como no caso do cantor Belo, tendo dado no que deu, condenação por associação ao tráfico de droga. O Adriano mesmo revelou outro dia que vai muito a sua comunidade porque precisa se lembrar da sua origem para não flutuar na fama e no dinheiro. Perfeito. Mas cautela é sempre importante. Agora ele vai ter de explicar à polícia por que deu uma moto de 35 mil reais a uma senhora da favela, mãe de traficante. E a história do Vagner Love também é grave. Não se pode achar normal ir a uma favela e ser recebido e escoltado por traficantes altamente armados. Por outro lado, fico pensando uma coisa. Será que eu ou você recusaria um convite de alguém contemporâneo seu lá da comunidade para ser padrinho de casamento ou para ir a uma festa de aniversário? Guardadas as devidas proporções, é a mesma coisa de alguém de conduta duvidosa da sua cidade que insiste em ser seu amigo. Imagine uma pessoa perigosa (envolvida em crimes), que você conhece faz tempo, pelo menos de vista, que te convida, num encontro casual, para tomar uma cerveja ou te pede uma carona. O que você faz?

15 comentários:

Leticia de Andrade Venicio disse...

Em todo o caso o bom senso é sempre bom, não abandonar as origens humildes é algo de grande valor, mas saber separar as coisas é muito mais, não é preciso ter intimidade com pessoas de má conduta, basta respeitar. O limite da intimidade é você que coloca com cuidado para não ser preconceituoso, porque as pessoas podem mudar, mas a cautela é sempre valiosa. Acho que agiria assim.

Seu texto está otimo tio, beijos.

Fabrício Andrade disse...

Letícia, excelente o seu comentário. Muito sensato e maduro. Parabéns!

William R Grilli Gama disse...

Sem entrar no mérito da questão, em algum blog especializado em matéria esportiva que não me recordo qual, um jornalista fez uma observação que me pareceu pertinente: - só porque o cara joga bem, ele tem que ser bom exemplo?? Estenda-se isso a todos os demais talentosos em questão; fazem bem o que se propuseram a fazer, nunca pediram para ser exemplo pra ninguém. Não estaríamos exigindo demais?

Marco Zanqueta disse...

Fabrício,este post tráz uma forte relfexão aos leitores,pois é muito fácil falar de uma situação que não estamos envolvidos.Agora quando estamos envolvidos , sempre tem um"porque","mais".
Ministro minhas palestras motivacionais e por experiência própria falar é facil,mas a prática é outra.
Parabéns .adorei o mapa e a bandeira.de Rondonia.
Marco Zanqueta

Fabrício Andrade disse...

Grilli, é verdade a ponderação do jornalista, mas o duro é que esses caras tornam-se exemplos para o jovens, mas vacilam desse tanto. É lamentável perceber uma relação tão estreita de famosos com bandidos. Isso não é só com jogador de futebol famosos não. Abraço.

Fabrício Andrade disse...

Zanqueta, bom demais recebr sua visita. É isso mesmo. É só a gente se imaginar no lugar deles. Por outro lado, os caras vacilam demais. Um abração e volte sempre.

Prof. Romulo Giacome O Fernandes disse...

Fabrição; já está danado na construção de "textos mina" não é? solta a bomba e deixa que a gente se ferre para dar juízo de valor; rsrs.Pois bem, não era para o seu texto existir. Justamente porque jogador de futebol não era para ser o ÚNICO exemplo da juventude de uma sociedade. Jogador de futebol é um esportista, não necessariamente um modelo a ser seguido. Uma sociedade onde o jogador é o modelo de vitória porque: ganha naquilo que todo mundo faz se divertindo, milhões, posa de carrão e mulheres, casas de 25 milhões, é para povo viajado demais; acorda robinho jr!!! Acorda Ronaldo da Silva;
Fabrício, você tocou em um ponto essencial; e merece parabéns; abraços

Gleise Horn disse...

Futebol é um sacooo! é triste morar num país cuja paixão das paixões é um jogo idiota onde 22 marmanjos feios, suados e semi-analfabetos correm atrás de uma bola; pior ainda é ver que são celebridades - são notícias em horário nobre, são amados, copiados, idolatrados como se tivessem uma grandiosidade, que a meu ver só é digna de quem realmente produz algo útil, belo, culturalmente relevante e construtivo para a sociedade. Enfim, em festa na favela, escoltados por traficantes ou não, com cocaína ou sem ela, esse povo não é digno de notícias (a não ser em caderno de esportes ou páginas policiais). Por fim, em matéria de corte de cabelo, não há salário astronômico que dê jeito no mal gosto desse povo. Pronto, falei.

Fabrício Andrade disse...

Rômulo, não tem boca, os caras se toram uma referência, nem sempre um exemplo. Nem todos eles são Kakás, no que tange a comportamento. Lamentável, né?

Fabrício Andrade disse...

Gleise, com relação a sua aversão pelo futebol, respeito sinceramente. As suas outras ponderações são pertinentes, razoáveis. Um beijo.

isaurina disse...

Fabrício,não é prudente ajuizar da mentalidade destes, pela impressão que nos dão.Portanto,fazer-se um julgamento preliminar, sem averiguação dos atos é precipitado, ou maldoso.
Porém,o cidadão público ou não ,deve procurar portar sua conduta de forma ética.Ter prudência e, preservar seus princípios e valores morais.Assim, evita-se , mas não o exime,que o caráter (atitude, comportamento ,etc) seja questionado.
No entanto,é habitual o povo (preconceituoso ou não)tentar questionar,acusar,culpar inocentar,incriminar, punir,dar respostas,justificar, atitudes sociais e, de forma rápida, através de adágios e expressões proverbiais brasileiras,tais como:
-diga-me com quem andas,que te direi quem tu és;
-antes que proves, não louves nem reproves;
- debaixo desse angú tem torresmo;
- dize-me com quem andas e eu te direi as manhas que tens;
- onde há fumaça, há fogo;
- onde há mel, há abelhas;
- onde mora raposa, não se cria galinha;
-onde não chega o pano, chega a tesoura;
- o povo aumenta, mas não inventa;
- antes ser e não parecer que parecer e não ser;
-a aranha vive do que tece;
- a árvore se conhece pelos frutos;
- a boa vida mora no prato limpo;
- aCésar o que é de César;
- a fama tem asas;
- afogar-se em pingo de água;
- fortuna é como o vidro: tanto brilha, como quebra;
- a gente guarda o que comer e não o que fazer;
- a gente pensa que faz um giro e faz um jirau;
- a gente trabalha pra si, pra Deus e pro diabo;
- agulha sem fundo não arrasta linha;
- a honra é como vidro: quebrando, não solda mais;
- anel de ouro não é para focinho de porco;
- a pinta que o galo tem, o pinto nasce com ela;
-aqui é que a porca torce o rabo;
- árvore ruim não dá bom fruto;
- as aparências enganam;
- a sã política é filha da moral e da razão;
- as coisas nunca saem do jeito que a gente pensa;
- a tentação nasce da ocasião;
- atrás da cruz se esconde o diabo;
- a verdade é como azeite: vem à tona;
- o sol não é quem faz a sombra;
- cachorro que anda muito cria rabugem pra si ou pro dono;
- Cachorro que come ovelha só deixa depois que morre.
- Cachorro que engole o osso toma a medida do pescoço.
- cachorro velho não se acostuma com coleira;
- canudo que teve pimenta, guarda o ardume;
- três coisas fazem o homem se perder: muito falar e pouco saber, muito gastar e pouco ter, muito presumir e pouco valer;
uns devem, porém não pagam, outros pagam sem dever;
- urubu pelado não voa em bando;
- não faz passo largo quem tem perna curta; entre outras tantas.
Ora,não pode-se negar que são analogias populares e, sábias ,ditas em ocasiões oportunas.
Questiona-se:
não há controvérsias.
há divergências?
Enfim,ter cautela, fazer uso bom senso, é conveniente.
Beijo.

Fabrício Andrade disse...

Isaurina, que maravilha, bão, bão, bão! Excelente a sua contribuição. É impossível não se fazer algum juízo de valor, mais profundo ou superficial. Algum juízo sempre se faz e é possível fazê-lo sem ser leviano ou injusto. Os jargões populares que você menciona são perfeitos. Não conhecia todos, gostei muito. Obrigado. Um beijão!

diogo disse...

Professor, parabéns mais uma vez pelo excelente texto, ele é altamente reflexivo. Eu sou partidário daquele velho provérbio: diga-me com quem andas e eu te direi quem és. Parece simplório e talvez não condiga com a mais perfeita realidade, vez que podemos sustentar uma amizade ou "coleguismo" com alguém de conduta duvidosa e não ser tal qual. Porém eu sempre digo que não basta ser, devemos parecer ser. Não basta ser honesto, devemos parecer honestos. Andar escoltado por traficantes em baile funk no morro ou doar uma moto de 35 mil reais a uma senhora que nem sabe ler, mas por ser mãe de um traficante, NÃO ME PARECE MUITO HONESTO. No mais professor, grande parte das pessoas, principalmente as crianças, são altamente influenciáveis. Devemos, pois, convir que eles estão dando um péssimo exemplo. Valeu professor.

Lorena Medeiros disse...

Fabrício. Vou fazer uma observação sobre o comentário de minha Mãe e o seu. Claro que é quase impossível não fazer algum juízo de valor sobre uma situação. Esse caso segue o mesmo raciocínio do preconceito, ou seja, um conceito preconcebido que muitas vezes é de forma discriminatória. Esse “pré” conceito se manifesta de forma social, racial ou sexual e, geralmente, são baseados em estereótipos. Isso quer dizer que, se está com assassinos, você também é do crime, se você freqüenta e convive com gays, você também é homossexual. Entra-se agora na questão que minha Mamis comentou ao citar um ditado popular: “Diga-me com quem andas,que te direi quem tu és”.

*Seu blog não é o BBB mas eu estou sempre dando uma espiadinha (risos). Um beijo!

Thonny Hawany disse...

Caríssimo professor Fabrício,

Vou começar o meu comentário usando a sua pergunta: “Será que eu ou você recusaria um convite de alguém contemporâneo seu lá da comunidade para ser padrinho de casamento ou para ir a uma festa de aniversário?” Não, eu não recusaria. A consideração, o respeito e o afeto entre as pessoas não reconhece traficantes, jogadores de futebol, médicos, padres, pastores, professores, mendigos, homossexuais, negros etc. O adágio popular: “Digas-me com quem tu andas e eu te direi quem tu és” é relativo a meu ver. O fato de conhecer alguém não me coloca na mesma condição desse alguém. No entanto, a sociedade já convencionou que andar com alguém, ou fazer o que esse alguém faz, é ser o que esse “alguém” é. O texto “Os famosos e os anônimos perigosos” trata de um assunto bastante polêmico e por isso devemos ter bastante cautela ao analisá-lo. Se as evidências denotam uma relação ilícita entre os jogadores e as pessoas da comunidade visitadas por eles, então, essa relação deverá ser olhada a luz da lei. O que não se pode é achar que qualquer relação entre famosos e os chamados “anônimos perigosos” constitua um atentado aos bons costumes, a ética e a moral. Esse olhar do “digas-me-com-quem-tu-andas-que-te-direi-quem-tu-és” não é somente um resultado das relações entre traficantes, ladrões, criminosos e as chamadas pessoas moralmente corretas, mas também um resultado da relação entre quaisquer pessoas que possuam quaisquer diferenças, bastando que essas diferenças não sejam aceitas por mim ou pelo grupo a que eu pertença. Exemplo: se anda com homossexual, então homossexual é; se anda com umbandista, então umbandista é etc. Isso não é verdade. Finalizo reforçando: o afeto não reconhece diferenças, mas é preciso nos impor para que essas diferenças não maculem o afeto que sentimos por alguém, mas que também não nos acometa de situações vexatórias. Viver em sociedade é um jogo de ser e de parecer ser. Os “jogadores sociais” precisam saber quando é e quando somente parece que é. Assim o sendo, tudo será mais fácil para famosos e também para os anônimos.